Primeiro encontro com Villa-Lobos, por Arthur Rubinstein

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Há dez anos que tudo isso se passou. Durante a minha permanência no Rio de Janeiro, ouvi muitas vezes o nome de Villa-Lobos, que eu, até então, não conhecia. Desde logo fiquei interessado: era pobre, a vida o obrigava a procurar emprego numa orquestra de cinema de terceira ordem. […]

Uma tarde, estando eu livre, fui ao cinema em que Villa-Lobos tocava. A orquestra executava peças do repertório internacional, como acontece em toda parte. Começava a aborrecer-me quando se deu um fato inesperado: um dos músicos da orquestra, olhando para a sala, percebeu-me no meio do público. Quando começou a segunda parte, ouvi uma música que não se parecia nada com a que ouvira na primeira parte. Era uma dança exótica, muito rítmica e muito expressiva na sua harmonia. Percebi imediatamente nessa música um grande talento, que não se encontra todos os dias. Resolvi dar o primeiro passo e travar conhecimento com o compositor. Fui aos bastidores. Encontrei-o, apresentei-me e pedi-lhe pormenores da sua obra que acabava de ser executada. A resposta foi completamente inesperada para mim: “Estas coisas não vos podem interessar” respondeu Villa-Lobos, deu-me as costas e deixou-me.

Passaram-se alguns dias. Certa manhã fui despertado por um barulho no saguão do hotel. Eram 9 horas e geralmente nessa hora reinava tranquilidade na casa. Chamei os empregados e soube, com surpresa, que uma numerosa delegação da orquestra queria falar-me. Vesti-me às pressas, muito interessado por esse negócio. A delegação era absolutamente extraordinária. Notei no saguão muitos músicos, com os seus instrumentos debaixo do braço. Villa-Lobos achava-se à sua frente. Contou-me, em poucas palavras, que refletira e resolvera tocar para mim algumas composições suas. …afinal, toda a orquestra colocada, pode começar-se o concerto. Não o esquecerei durante toda minha vida. A música de VillaLobos não era somente bela e impressionante, mas possuía ainda uma qualidade que se encontra raramente. Essa qualidade era a perfeita particularidade do estilo, que caracteriza até hoje a música de Villa-Lobos. Era incomparável!

Trecho inicial do artigo “Villa-Lobos”, do pianista Arthur Rubinstein. Publicado originalmente na Revista Musika (Polônia), em abril de 1929. Republicado em O Estado de S. Paulo, 1 de setembro de 1929.